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Entrevista: A vulnerabilidade a doenças aumenta em situação de enchentes

Toda ocorrência de enchentes urbanas, como as que afetaram várias cidades do Rio Grande do Sul, causam prejuízos incalculáveis à população. Na maioria das vezes, as pessoas atingidas perdem tudo, são desalojadas de suas casas e normalmente ficam sem condições de suprir as necessidades básicas. Além da perda material, essa situação causa muito estresse pós-traumático, com consequências danosas ao bem-estar físico e mental a curto e a médio prazo. Se todos esses desdobramentos já não fossem muito sofrimento, ainda tem o risco de doenças infecciosas, que aumentam consideravelmente em grandes enchentes. “São diversos vírus, fungos, bactérias e parasitas que têm a sua propagação facilitada nesse momento de desestrutura social associada à vulnerabilidade das pessoas afetadas”, explica o Docente da Disciplina de Infectologia da Faculdade de Medicina do ABC Dr. Munir Akar Ayub. Na coluna entrevista, o especialista em Medicina Tropical explica quais doenças são as mais previsíveis e os agentes patológicos mais comuns após uma enchente, bem como os cuidados que devem ser priorizados, entre outras condutas importantes.  

Quais são as doenças mais comuns que surgem após uma enchente?

As infecções mais comuns são as relacionadas ao contato com água contaminada. Como exemplos principais, podemos citar:  diarreias infecciosas, hepatite A, cólera, febre tifoide, leptospirose e verminoses em geral. Em seguida, aparecem as doenças respiratórias relacionadas ao frio e ao contato entre as pessoas que estão em abrigos, como o resfriado comum, a gripe e a Covid, além das infestações, entre elas, a pediculose e a escabiose, comuns em locais superlotados e com compartilhamento de roupas e toalhas. Também é esperado um aumento no número de casos de arboviroses, como a dengue e a febre amarela, pois o recuo das águas ocasiona poças represadas que funcionam como fonte de multiplicação de mosquitos do tipo Aedes. Também não podemos esquecer da probabilidade de ferimentos e traumas que, além das consequências ortopédicas, podem ocasionar o tétano em pessoas não vacinadas corretamente.

Quais são os principais agentes patogênicos responsáveis por essas doenças?

São diversos vírus, fungos, bactérias e parasitas que têm a sua propagação facilitada nesse momento de desestrutura social associada à vulnerabilidade das pessoas afetadas.

Como as enchentes facilitam a propagação dessas doenças?

Em uma enchente existe a contaminação de objetos e alimentos por fezes humanas, urina de ratos, pessoas e animais mortos, que são fatores predisponentes para o aparecimento dessas doenças.

Pode citar exemplos de surtos significativos de doenças após enchentes?

Em todo o mundo são descritos surtos de doenças relacionadas às enchentes, que dependem, é claro, das condições sanitárias e epidemiológica de cada região. A maioria dessas doenças não são de notificação compulsória, portanto, é difícil quantificar com exatidão a sua frequência, mas claramente é observado esse aumento. A exceção é a leptospirose. Nesse momento, centenas de casos com 6 óbitos já são notificados na região do Rio Grande do Sul.

Qual é o papel da higiene pessoal na prevenção de doenças durante e após uma enchente?

É fundamental a higiene das mãos, boca, olhos, região íntima e de eventuais ferimentos. Idem para utensílios domésticos, como copos, pratos e talheres. Além disso, é imprescindível o uso de luvas, roupas e calçados protetores. Nos telejornais não é difícil verificar a presença de pessoas em contato com essas águas sem a devida proteção.

Quais são os grupos mais vulneráveis às doenças em situação de enchente?

Todas as pessoas em qualquer idade ou situação estão sujeitas a essas enfermidades, mas é claro que idosos, imunossuprimidos e pessoas que vivem em condições precárias estão mais suscetíveis a uma maior gravidade. Não podemos esquecer que os voluntários, bombeiros e demais organizações, governamentais ou não, em atividade de ajuda também estão propensos a essas mesmas doenças.

Como a comunidade pode se preparar para minimizar os riscos de doenças em futuras enchentes?

Vários esforços são necessários para minimizar esse risco.  Melhorar as condições higiênico sanitárias da população com tratamento universal de água e esgoto. Educação preventiva, demonstrando os riscos do contato com essas águas sem a devida proteção. Estimular a imunização adequada e atualizada de toda a população. Notificação prévia do serviço meteorológico de possíveis condições de chuva e enchente, para que as pessoas possam abandonar com antecipação as áreas mais suscetíveis. Mapear as áreas passíveis de transbordamento de córregos e rios. Garantir que as pessoas resgatadas e abrigadas sejam acolhidas em ambientes com condições mínimas de conforto e alimentação até a normalização da situação.

Como as mudanças climáticas podem influenciar a frequência e a gravidade das doenças relacionadas a enchentes?

Com o aquecimento global estão previstos que esses fenômenos climáticos extremos serão mais frequentes, duradouros e consequentemente mais destrutivos. Dessa forma, é imperativo que o poder público desenvolva uma política preventiva de modo a mitigar as consequências.

Pode citar exemplos de surtos significativos de doenças após enchentes em diferentes regiões do mundo?

Não tenho esse dado, uma vez que apenas as hepatites e as leptospiroses são doenças de notificação compulsória, mesmo assim, são tradicionalmente subnotificadas. Além disso, a maioria dos casos pouco graves ou sem diagnóstico acabam não sendo computados nessas estatísticas.

Qual é a importância da vacinação em áreas propensas a enchentes?

Lembramos que o Programa Nacional de Imunização garante a todos brasileiros a maioria das vacinas importantes para esse contexto gratuitamente. A imunização adequada e completa é fundamental em qualquer situação. Além de garantir uma melhor proteção, evita a procura por vacinas nesse momento conturbado e difícil de catástrofe, já que esses insumos também sofrem com a dificuldade logística de chegarem nos locais que mais necessitam.

Quais vacinas são recomendadas para reaplicação após uma enchente?

São recomendadas a vacina contra hepatite A para todos os indivíduos não vacinados anteriormente e a atualização da vacinação contra a Covid, a gripe e o tétano.  As vacinas contra a cólera e a febre tifoide serão indicadas se houver necessidade, caso haja aparecimento de casos confirmados, uma vez que esses produtos não fazem parte do Programa Nacional de Imunização. Não podemos esquecer da imunização contra o tétano em pessoas acidentadas e contra a raiva nas vítimas de mordedura de animais. Também fazem parte desses cuidados a administração de soros específicos contra picadas de cobras, aranhas e escorpiões, quando indicados.

Qual é o intervalo ideal entre a exposição a uma enchente e a reaplicação das vacinas? O mais rapidamente possível. É importante lembrar que a proteção ocorre em média duas semanas após a aplicação da vacina, qualquer que seja ela. Deve-se lembrar também da necessidade de antibiótico de profilaxia para as doenças não preveníveis por vacinação específica, como é o caso da leptospirose, que deve ser tomado semanalmente enquanto houver risco.

Quais são os grupos de risco que devem ser priorizados para a reaplicação de vacinas após uma enchente?

Gripe e Covid: Socorristas (profissionais e voluntários), pessoas em atendimento de abrigos (profissionais e voluntários), pessoas resgatadas e alocadas em abrigos, desalojados e grupos prioritários definidos pelo Programa Nacional de Imunização. Hepatite A: Todas as pessoas e gestantes de 18 a 40 anos não vacinados (desalojados e abrigados). Tétano: atualizar a vacinação de todos os socorristas, dos resgatados com ferimentos e gestantes. Raiva: pré-exposição em médicos, técnicos veterinários e pessoas trabalhando em abrigo de animais ou em resgate. Em pessoas que sofreram um acidente ou agressão por um animal, deve seguir o protocolo pós-exposição da Raiva do Ministério da Saúde.

Como garantir que populações deslocadas ou em áreas de difícil acesso recebam as vacinas necessárias?

A maioria dessas vacinas faz parte do calendário do PNI (Programa Nacional de Imunização), devendo apenas que o poder público garanta a chegada desses imunobiológicos aos locais de atendimento, apesar de sabermos das dificuldades de acesso a locais atingidos por grandes enchentes. Além disso, as vacinas necessitam de refrigeração para seu armazenamento e a falta de energia elétrica é comum em situações de catástrofes.

Dr. Munir Akar Ayub: Docente da Disciplina de Infectologia da Faculdade de Medicina do ABC e Membro do Comitê de Imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia. Mestrado em Ciências da Saúde; Especialização em Medicina Tropical pela Faculdade de Medicina da USP; Título de Especialista em Infectologia concedido pela Associação Médica Brasileira-AMB e Sociedade Brasileira de Infectologia-SBI.

Acesse o link e acompanhe esta e outras notícias da edição 167 da revista digital Notícias Médicas https://apmsantoandre.org.br/wp-content/uploads/2024/07/Not%C3%ADcias-M%C3%A9dicas-maio-junho-2024.pdf