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Entre Decisões e Afetos: o Médico no Cuidado dos Pais

Cuidar faz parte da essência da Medicina. Mas quando o paciente é alguém da própria família, e, especialmente, os pais, o exercício da medicina ganha contornos muito mais complexos. A sobreposição dos papéis de médico e filho impõe dilemas éticos, desafios emocionais e decisões delicadas, que nem
sempre encontram respaldo na formação acadêmica. Esta edição da revista digital Notícias Médicas propõe uma reflexão a partir de duas perspectivas: a de um médico recém-formado, que encara essa possibilidade como uma realidade futura, e a de um profissional experiente, que, às vezes, já vivenciou
ou vivencia o cuidado com os próprios pais. Em comum, a necessidade de equilibrar conhecimento técnico, limites profissionais e vínculos afetivos em uma das experiências mais sensíveis da prática médica.

Dra. Giovanna Galafassi: Formada pela Faculdade de Medicina está no quinto ano da residência de
neurocirurgia da FMABC

Ainda no início da carreira, Dra. Giovanna Galafassi reconhece que o vínculo entre Medicina e família começa muito antes da atuação profissional propriamente dita. Ao refletir sobre a possibilidade de precisar cuidar dos próprios pais no futuro, ela fala sobre a dificuldade de separar o olhar técnico do envolvimento emocional, os limites da imparcialidade e o peso das decisões quando o amor interfere no julgamento clínico. A experiência vivida com a avó também reforçou sua percepção sobre empatia, vulnerabilidade e responsabilidade na prática médica. “Em muitos momentos, eu desejava ser apenas neta.”

Ao iniciar sua carreira, como a senhora enxerga a possibilidade de, em algum momento, precisar
cuidar da saúde dos seus próprios pais?

Acredito que, desde o momento em que entramos na faculdade de Medicina, já nos tornamos, de certa forma, os médicos dos nossos pais. Existe uma inversão imediata dos papéis de pai e filho: passamos a ser a maior referência para eles em assuntos relacionados à Medicina e responsáveis por cuidar de toda a família. Ao longo da graduação e, posteriormente, da vida profissional, essa função vai se consolidando cada vez mais, e de fato assumimos o papel de médicos. É inevitável e algo que, ao meu ver, ocorre de forma natural.

A senhora se sente preparada, do ponto de vista emocional, para lidar com a inversão de papéis
entre filha e médica? Por quê?

É difícil dizer se estamos preparados ou não sem ter passado por certas situações. Acredito que 100% preparados jamais estaremos, mas é nossa obrigação, como filhos, fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para zelar pela saúde dos nossos pais. Se, para isso, for necessário assumir não apenas o papel de filha, mas também o de médica, que assim seja. São situações em que nossas vontades e conflitos pessoais devem ficar em segundo plano.


Durante a graduação ou residência, esse tema foi discutido de forma prática? O que sentiu falta
nessa formação?

Não me recordo de ter discutido essa pauta na faculdade ou na residência. Claro que é um tema presente na nossa rotina e que acaba surgindo em conversas com colegas médicos ou familiares médicos, mas não me lembro de uma aula formal sobre isso. Seria interessante ouvir mais sobre o assunto, embora eu não saiba se isso realmente mudaria algo. São questões que não se aprendem apenas na teoria; acabamos compreendendo melhor quando vivenciamos.

Na sua visão, quais seriam os maiores desafios ao assumir decisões clínicas envolvendo seus pais?
Acredito que eu duvidaria do meu próprio julgamento. É extremamente difícil, se não impossível, separar o lado emocional do clínico. Em situações delicadas, com certeza deixaria meu lado filha prevalecer, o que interferiria nas minhas decisões como médica. Tenho medo de prolongar a vida de familiares que se encontram em quadros irreversíveis por estar com o julgamento comprometido pelo amor que sinto por eles.

A senhora acredita que conseguiria manter o distanciamento necessário para uma conduta médica adequada? Onde imagina que estaria a maior dificuldade?
Seria impossível para mim manter esse distanciamento. Claro que eu daria o meu máximo para auxiliar na tomada de decisões, estudando, ouvindo a opinião de colegas e buscando sempre o melhor, mas sabendo que minha avaliação não estaria sendo imparcial. Acredito que a maior dificuldade seria saber o momento de parar.

Em uma situação real, a senhora optaria por assumir diretamente o cuidado ou preferiria delegar
a outro colega? Por quê?

Não assumiria, principalmente pelo fato de minha especialidade ser cirúrgica. Jamais operaria um
dos meus pais. A sala de cirurgia é um ambiente que não permite erros, inclusive aqueles motivados
por desequilíbrio emocional. Não assumiria essa responsabilidade sabendo que seria impossível manter
a imparcialidade e o julgamento técnico intactos.

Como imagina que essa experiência poderia impactar sua segurança profissional neste início de carreira? Não acredito que impactaria minha segurança profissional, mas sim a forma como vejo os pacientes e seus familiares. Viver certas experiências nos torna mais empáticos.

A senhora já vivenciou, mesmo que indiretamente, situações semelhantes com colegas ou familiares? O que mais chamou sua atenção?
Vivenciei uma situação semelhante com a minha avó. Não fui a médica responsável pela condução do caso, mas participei da tomada de decisões e de todo o processo. Foi extremamente difícil; em muitos momentos, eu desejava ser apenas neta. Tinha muitas dúvidas e não sabia qual seria o melhor caminho a seguir. Existia uma pressão interna muito grande: eu não podia errar de forma alguma, pois estava lidando com a saúde de uma das pessoas que mais amo no mundo.

Que tipo de apoio institucional ou emocional a senhora considera importante para médicos jovens diante desse tipo de situação?
Acredito que o apoio emocional seja fundamental, seja por meio de ajuda profissional ou do apoio de
amigos e familiares médicos que já passaram por situações semelhantes.

Que reflexões esse tema desperta na senhora sobre o futuro da sua vida pessoal e profissional?
Acho fundamental discutir esse tema e refletir verdadeiramente sobre essas possibilidades. Em algum momento isso vai acontecer, então devemos tentar estar preparados. Viver experiências como essa nos torna muito mais empáticos com nossos pacientes e mais seguros em nossa prática profissional.

Dra. Karen de Gennaro: Formada há 23 anos, é psiquiatra pela Santa Casa de São Paulo, com especialização em Interconsulta Psiquiátrica pela Unifesp, título de especialista em Psiquiatria pela
Sociedade Brasileira de Psiquiatria (SBP) e MBA em Gestão em Saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV)

Entre a lucidez técnica e a fragilidade emocional, Dra. Karen de Gennaro, com 23 anos de formação em medicina viveu o desafio de acompanhar o pai em uma grave internação, precisando conciliar os papéis de médica e filha. A experiência, marcada por dilemas, impotência e aprendizado, transformou sua forma de enxergar o cuidado e fortaleceu ainda mais sua empatia na relação com pacientes e familiares.
“É possível manter o olhar técnico mesmo diante do envolvimento emocional, mas isso exige muito autoconhecimento e autocontrole”

A senhora chegou a cuidar diretamente de seu pai em algum momento da doença? Como foi essa experiência?
Sim. Há alguns anos, meu pai teve uma condição aguda e totalmente inesperada, que o levou a uma
internação em UTI, seguida de várias complicações e procedimentos. Foi uma experiência extremamente difícil, tanto do ponto de vista emocional quanto profissional.

Quais foram os maiores desafios em conciliar o papel de médica e filha?
A sobreposição dos papéis de médica e filha realmente é um grande desafio, porque há situações que, como filha, você gostaria de não enxergar, mas, como médica, consegue compreender plenamente a gravidade e as possíveis consequências. Nesse momento, vive-se uma ambivalência constante entre intervir, assumindo o papel técnico, ou se afastar e permitir que a condução do caso siga nas mãos de profissionais em quem você confia.

Essa vivência mudou sua forma de enxergar o cuidado com familiares?
Sim, mudou bastante. Hoje, escolho colegas em quem confio e entrego meus familiares aos seus
cuidados. Acho que, ao longo da vida, aprendi mais sobre a importância de oferecer suporte físico e emocional, que é, muitas vezes, o papel para o qual realmente somos convocados nessas situações.

Existe algum dilema ético ou emocional que tenha marcado mais esse período?
O maior dilema é saber como intervir diante de alguma conduta de outro profissional com a qual você discorda. Como lidar com diferentes formas de pensar o mesmo caso, especialmente quando envolve alguém da sua família? É uma situação bastante difícil.

É possível manter o olhar técnico diante do envolvimento emocional? Acredito que sim. É possível manter o olhar técnico mesmo diante do envolvimento emocional, mas isso exige muito autoconhecimento e autocontrole.

Em algum momento a senhora sentiu que não conseguia mais exercer o papel de médica?
Sim. Na situação grave vivenciada pelo meu pai, e pelo fato de sermos extremamente ligados emocionalmente, houve muitos momentos em que não consegui assumir o cuidado. Eu não tinha recursos emocionais para isso e, muitas vezes, mal conseguia tomar decisões. Deleguei bastante ao
meu marido, que também é médico e me ajudou imensamente nesse período.

De que forma essa experiência impactou sua relação com os pacientes e familiares deles?
Apesar de dolorosa, essa vivência trouxe um aprendizado enorme, que muitas vezes consigo
traduzir no cuidado aos meus pacientes em situações semelhantes. Aproximar-se da realidade vivida pelo paciente e por seus familiares, além de desenvolver empatia por uma dor que também já experimentamos, contribui terapeuticamente para a condução dos casos.

A senhora já se questionou sobre decisões tomadas durante o tratamento?
Quando olho retrospectivamente, já pensei e repensei, como acontece com todas as pessoas que perdem alguém, se, em algum momento, deveríamos ter agido de forma diferente. Isso faz parte da nossa cultura médica, muitas vezes marcada por uma sensação de onipotência. Com a maturidade, porém, entendi que fizemos tudo o que poderia ter sido feito. Meu pai foi cuidado pelos melhores colegas médicos – inicialmente éramos seis acompanhando o caso – e tenho certeza de que nada nos escapou. Foram, infelizmente, desfechos desfavoráveis que o levaram. Nesses momentos, precisamos compreender os limites da própria “máquina do corpo humano”, algo que nossos estudos na Medicina nos ensinam ao longo da formação.

Como o médico pode preservar sua saúde mental diante de situações tão delicadas?
A estratégia fundamental para preservar a saúde mental nessas circunstâncias é contar com uma rede de apoio formada por pessoas que atravessem essas turbulências ao seu lado e, se possível, fazer psicoterapia, para elaborar essa avalanche de emoções que acontece simultaneamente. Como psiquiatra, faço psicoterapia ao longo da vida como parte da minha rotina profissional, e isso me ajudou muito nesse período difícil.

Que conselho daria aos médicos mais jovens que ainda poderão enfrentar essa situação?
Meus conselhos aos médicos mais jovens que ainda poderão enfrentar situações semelhantes são: -Procurem ajuda em saúde mental, caso necessário. Não esperem adoecer para buscar apoio; antecipem-se e cuidem de si mesmos. -Procurem profissionais em quem confiem para conduzir o caso de seus familiares; isso torna mais fácil delegar o cuidado. -Cerquem-se de pessoas que constituam uma ampla rede de apoio, preferencialmente pessoas leves e que lhes façam bem.

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