Entrevistas com alunos de medicina da Faculdade UNINOVE, Campus Mauá, e do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC (FMABC)
Pesquisas recentes sobre a formação médica no Brasil apontam que os acadêmicos demonstram crescente preocupação com a qualidade do ensino, o futuro da Medicina e a inserção no mercado de trabalho. Diante desse cenário, esta edição da revista Notícias Médicas reservou a sessão Entrevista para ouvir acadêmicos das faculdades de Medicina da Região do Grande ABC, com o objetivo de compartilhar suas diferentes percepções sobre as motivações para a escolha da profissão, os desafios da formação médica, bem como as expectativas e os caminhos da carreira em um contexto de constantes transformações.

Cursando décimo primeiro período do curso de Medicina da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), campus Mauá
O que motivou a escolha pela Medicina e em que momento você teve certeza de que essa seria a sua profissão?
Diferentemente de muitos colegas que sempre tiveram certeza da escolha, a minha decisão pela Medicina foi sendo construída ao longo do tempo. Ainda na infância, já demonstrava interesse pelo universo médico, muito influenciada por programas de televisão sobre emergências e traumas, um interesse que nem sempre era compartilhado pela família. Na adolescência, após enfrentar alguns problemas de saúde, esse interesse ganhou um significado mais concreto. Passei a considerar a possibilidade de atuar em um campo marcado pela escuta e pelo acolhimento. Nesse período, fiquei dividida entre Medicina e Psicologia, áreas diretamente ligadas ao cuidado com o outro, até optar definitivamente pela Medicina. Após cinco aprovações, consegui iniciar o curso no melhor contexto financeiro e de saúde para mim. A certeza de que essa era a profissão da minha vida veio apenas durante o internato. Até então, eu me perguntava se estava no caminho certo. A rotina hospitalar, o contato diário com os pacientes e a prática assistencial transformaram profundamente minha forma de enxergar a Medicina. Guardo com carinho momentos marcantes, como o reconhecimento de pacientes e gestos simples de gratidão, que confirmaram, aos poucos, que esse era realmente o meu caminho. Embora o ambiente acadêmico médico muitas vezes seja hostil, o contato com os pacientes faz tudo valer a pena. A certeza se renova a cada sorriso recebido ao final do dia, aliado à satisfação de um raciocínio clínico bem conduzido.
Na sua percepção, como é ser estudante de Medicina hoje, diante das transformações no ensino, das novas tecnologias e das exigências da formação médica?
O acesso às novas tecnologias representa um diferencial importante na formação médica atual. Faculdades que dispõem dessas ferramentas têm grande potencial para formar profissionais mais preparados, desde que elas sejam utilizadas de forma crítica e responsável. No entanto, tecnologia, por si só, não é suficiente. Ela precisa estar associada a um ensino de qualidade, com professores comprometidos, incentivo à iniciação científica e estímulo à produção de conhecimento. Não adianta formar um médico altamente tecnológico se ele não souber interpretar artigos científicos, buscar atualizações ou compreender novas diretrizes. Para mim, uma base científica sólida é essencial. O bom médico alia raciocínio clínico bem estruturado à humanidade no cuidado, utilizando as ferramentas disponíveis para oferecer o melhor ao paciente. Assim, ser estudante de Medicina hoje envolve desafios relevantes, mas também oportunidades valiosas de formação crítica e completa.
Como você enxerga a profissão médica na atualidade, especialmente em relação à valorização do médico, às condições de trabalho e à relação com os pacientes?
Enxergo o cenário atual da profissão médica com preocupação. Não tanto pelo aumento do número de profissionais formados, pois acredito que médicos despreparados não se sustentam a longo prazo, mas pelo crescente movimento de desvalorização da profissão, expresso na exposição indiscriminada de médicos nas redes sociais e em episódios cada vez mais frequentes de agressão e violência. Parte desse problema, a meu ver, está na perda de centralidade da ciência dentro da própria classe médica. Quando o pensamento crítico e a pesquisa deixam de ocupar um lugar central na prática profissional, o respeito pela Medicina como ciência se fragiliza. Retomar esse compromisso pode ser um caminho para recuperar credibilidade, reconhecimento social e autonomia profissional. Também percebo a Medicina como uma profissão, muitas vezes, solitária. No internato, é evidente a falta de união entre os próprios médicos, o que enfraquece a capacidade coletiva de enfrentar desafios estruturais. A classe médica precisa se organizar para refletir sobre o futuro da profissão e lutar por melhores condições de trabalho, formação e valorização. Considero ainda essencial ampliar a escuta dos estudantes e recém-formados, historicamente engajados nas lutas por melhorias no ensino. Muitas vezes, críticas construtivas são vistas como ameaça, quando poderiam contribuir para avanços reais. Como dizia meu avô: “Ande e escute somente seus amigos, e será enterrado em um caixão sem nunca ter conquistado nada.”
Quais são suas expectativas e preocupações em relação ao futuro da Medicina e ao início da vida profissional após a graduação?
Venho de uma família do interior de Minas Gerais e de imigrantes sírio-libaneses, pessoas que sempre conviveram com um futuro incerto. Com eles aprendi que preparo, competência e trabalho sério são caminhos naturais para o reconhecimento. Ao longo dos seis anos de graduação, procurei sempre dar o meu melhor, muitas vezes abrindo mão de momentos pessoais para estudar, participar de congressos, organizar atividades acadêmicas e produzir artigos científicos. Minha expectativa para o início da vida profissional, mesmo diante do aumento expressivo de médicos recém-formados, é ter oportunidades para demonstrar que me formei uma boa médica. É o conselho que sempre dou aos calouros: sejam competentes. A Medicina exige muito mais do que bom desempenho acadêmico; ela exige responsabilidade, empatia, ética e compromisso com o outro. Minha principal insegurança é não encontrar espaço para colocar essas qualidades em prática. Ainda assim, sigo adiante com a tranquilidade de quem sabe que fez a sua parte durante a formação e com a confiança de continuar mostrando a médica que me tornei.
Julia Pacolla Gomes

Cursando o 4° ano de Medicina da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), campus Mauá
O que motivou a escolha pela Medicina e em que momento você teve certeza de que essa seria a sua profissão?
Minha escolha pela Medicina foi sendo construída de forma gradual e consciente. No final do ensino médio, quando precisei decidir meu caminho profissional, percebi que buscava uma área que unisse ciência, contato humano e a possibilidade de gerar um impacto real na vida das pessoas. A Medicina reunia todos esses aspectos que eu considerava essenciais para minha realização pessoal e profissional. Ao longo da graduação, especialmente nos primeiros contatos com pacientes e com a prática clínica, essa certeza foi se fortalecendo. Foi nesse período que entendi que a Medicina não é apenas uma profissão, mas um compromisso contínuo com o cuidado, a responsabilidade e o respeito ao outro.
Na sua percepção, como é ser estudante de Medicina hoje, diante das transformações no ensino, das novas tecnologias e das exigências da formação médica?
Ser estudante de Medicina hoje é, ao mesmo tempo, desafiador e muito estimulante. Temos acesso a tecnologias avançadas, simulações realísticas, recursos digitais e informações em tempo real, o que amplia significativamente as possibilidades de aprendizado. Por outro lado, esse cenário também exige senso crítico, responsabilidade e equilíbrio emocional para lidar com o grande volume de informações disponíveis. Além disso, a formação médica atual cobra não apenas conhecimento técnico, mas também empatia, boa comunicação e uma visão integral do paciente. Tudo isso torna o processo formativo mais complexo, porém mais completo e, sobretudo, mais humano.
Como você enxerga a profissão médica na atualidade, especialmente em relação à valorização do médico, às condições de trabalho e à relação com os pacientes?
Vejo a Medicina como uma profissão essencial para a sociedade, mas que enfrenta desafios importantes na atualidade. Entre eles, destaco a sobrecarga de trabalho, as condições nem sempre ideais de atuação e a necessidade constante de atualização profissional diante das transformações científicas e tecnológicas. Ao mesmo tempo, percebo uma valorização crescente da relação médico-paciente, com maior atenção à escuta qualificada, ao vínculo e ao cuidado integral. Acredito que esse resgate da humanização é um dos caminhos mais relevantes para fortalecer a profissão e melhorar a qualidade da assistência prestada.
Quais são suas expectativas e preocupações em relação ao futuro da Medicina e ao início da vida profissional após a graduação?
Minhas expectativas para o futuro envolvem crescer como profissional, continuar aprendendo ao longo da carreira e conseguir exercer uma Medicina ética, humana e tecnicamente sólida. Quero me sentir preparada para tomar decisões responsáveis e oferecer um cuidado de qualidade aos pacientes.
Ao mesmo tempo, existem preocupações naturais em relação ao mercado de trabalho, às condições de atuação e ao impacto emocional que a profissão pode gerar. Ainda assim, acredito que, com preparo, empatia e compromisso, é possível construir uma trajetória profissional significativa, responsável e transformadora.
Isabella Flohr de Souza

Cursando o 4° ano de Medicina da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), campus Mauá
O que motivou a escolha pela Medicina e em que momento você teve certeza de que essa seria a sua profissão?
Sempre tive um profundo desejo de ajudar as pessoas e encontrei na Medicina a forma mais plena de transformar esse propósito em realização pessoal e felicidade. Desde a infância, costumava afirmar que seria médica, pois enxergava na profissão a possibilidade de cuidar do outro de maneira concreta e significativa. Entretanto, durante a adolescência, em meio a incertezas e aos desafios próprios dessa fase, essa convicção acabou se enfraquecendo. Foi somente no último ano da escola que consegui refletir com mais clareza sobre minhas escolhas e compreender que a Medicina era, de fato, o caminho capaz de me realizar verdadeiramente, tanto no aspecto profissional quanto humano.
Na sua percepção, como é ser estudante de Medicina hoje, diante das transformações no ensino, das novas tecnologias e das exigências da formação médica?
Ser estudante de Medicina nos dias atuais é bastante desafiador. Vivemos em uma era marcada pelo avanço da tecnologia, na qual uma simples pesquisa pode levar a um “possível diagnóstico”, o que exige ainda mais responsabilidade e senso crítico por parte do futuro médico. Entretanto, quando bem utilizada, a tecnologia se torna uma aliada extraordinária no processo de aprendizagem. Ela auxilia em diversas etapas da trajetória acadêmica, contribuindo para o acesso à informação, à atualização constante e ao aprofundamento dos estudos, mas sempre deve ser usada com cautela e de forma ética.
Como você enxerga a profissão médica na atualidade, especialmente em relação à valorização do médico, às condições de trabalho e à relação com os pacientes?
Acredito que os médicos ainda sejam valorizados na atualidade; entretanto, com o crescimento das redes sociais, existe um grande paradigma em relação aos erros e acertos na prática médica. Os erros rapidamente se tornam manchetes, enquanto os acertos, na maioria das vezes, passam despercebidos. Em minha visão, essa exposição desigual acaba gerando nos médicos um sentimento constante de insegurança e incerteza diante da profissão. Quanto à relação médico-paciente, acredito que ela venha se fortalecendo ao longo dos anos, uma vez que os padrões da prática médica têm evoluído para uma abordagem mais horizontal. Nessa perspectiva, o médico não se coloca acima do paciente, mas ao seu lado, reforçando a ideia de que ambos possuem papéis fundamentais no cuidado com a saúde.
Quais são suas expectativas e preocupações em relação ao futuro da Medicina e ao início da vida profissional após a graduação?
Minhas expectativas em relação ao futuro da Medicina estão relacionadas ao avanço contínuo do conhecimento científico e ao fortalecimento da relação médico-paciente. Espero iniciar minha vida profissional como médica com responsabilidade, empatia e compromisso genuíno com o cuidado ao próximo.
Entre minhas preocupações, destaco a sobrecarga de trabalho e, assim como mencionei anteriormente, a exposição excessiva da prática médica nas redes sociais, além da insegurança gerada pela constante cobrança por resultados. Também me preocupa a formação inadequada de alguns profissionais, fator que impacta diretamente a qualidade da assistência e a credibilidade da profissão.
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Heitor dos Anjos Gomes da Silva
Aluno do 3° ano da FMABC

O que motivou a escolha pela Medicina e em que momento você teve certeza de que essa seria a sua profissão?
O que me motivou a escolher a Medicina foi um grande interesse pelo funcionamento do ser humano, que surgiu ainda durante as aulas de Biologia na escola. Sempre tive curiosidade em entender como o corpo humano funciona e como os processos biológicos se relacionam com a saúde e a doença. O momento em que tive certeza de que essa seria a minha profissão foi quando ingressei na faculdade de Medicina. Até então, eu tinha apenas uma percepção vaga do que realmente significava ser médico, e foi a vivência acadêmica que confirmou essa escolha.
Na sua percepção, como é ser estudante de Medicina hoje, diante das transformações no ensino, das novas tecnologias e das exigências da formação médica?
Acredito que seja um processo bastante desafiador. O aumento do número de escolas médicas e de alunos ingressando na profissão torna o mercado cada vez mais competitivo, o que exige que o estudante busque constantemente diferenciais ao longo da formação. Nesse contexto, torna-se cada vez mais importante aprender novos domínios de conhecimento, como o uso da inteligência artificial e de outras tecnologias que vêm sendo incorporadas à prática médica. Além disso, a informação está cada vez mais presente e acessível, o que faz com que, além do conhecimento técnico, o médico precise desenvolver outras habilidades. Entre elas, destaco a capacidade de comunicação, como saber transmitir segurança ao paciente e convencê-lo de que o tratamento proposto será benéfico, estabelecendo uma relação de confiança.
Como você enxerga a profissão médica na atualidade, especialmente em relação à valorização do médico, às condições de trabalho e à relação com os pacientes?
Acredito que, atualmente, a profissão médica ainda carrega um grande status social. No entanto, na prática, ela acaba sendo desvalorizada em função das cargas excessivas de trabalho, o que gera frustração para muitos profissionais.
Em relação à relação médico-paciente, acredito que ela varie bastante de acordo com a área de atuação. Algumas especialidades permitem um contato mais próximo e contínuo com os pacientes, enquanto outras envolvem uma interação mais limitada. Ainda assim, quando o médico realiza um trabalho ético, responsável e transmite confiança, a relação com o paciente tende a ser mais positiva e agradável.
Quais são suas expectativas e preocupações em relação ao futuro da Medicina e ao início da vida profissional após a graduação?
A Medicina vive atualmente um momento em que o mercado não consegue absorver todos os médicos formados. Além disso, não há vagas de residência suficientes para todos e, diante dessa realidade, surgiram as pós-graduações como alternativa. Acredito que esse movimento seja prejudicial para a profissão, uma vez que esses cursos, muitas vezes, não contemplam toda a formação que um especialista deveria ter. Isso acaba levando o médico a se arriscar a atuar em áreas para as quais pode não estar plenamente preparado, o que gera preocupação em relação à qualidade da formação e da assistência prestada.

Aluna do 3º ano e presidente doDiretório Acadêmico Nylceo Marques de Castro (D.A.N.M.C.), da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC)
Meu primeiro contato com a ideia da Medicina surgiu de forma bastante espontânea, ao assistir a séries médicas durante a adolescência, o que despertou minha curiosidade pela rotina profissional e pelo ambiente hospitalar. Diferentemente de outros momentos em que me interessei por profissões influenciada por filmes e séries, a Medicina foi a única que continuou fazendo sentido quando passei a conhecê-la mais a fundo e a refletir sobre o que realmente envolvia essa carreira. Com o tempo, fui percebendo que realmente gostava de estudar Biologia, fisiologia humana e de compreender como o corpo humano funciona. A certeza veio quando tentei considerar outras carreiras e percebi que nenhuma despertava em mim o mesmo nível de interesse, envolvimento e sensação de realização que a Medicina sempre proporcionou.
Na sua percepção, como é ser estudante de Medicina hoje, diante das transformações no ensino, das novas tecnologias e das exigências da formação médica?
Ser estudante de Medicina hoje exige um alto grau de autonomia, organização e senso crítico. Temos acesso a um volume muito grande de informações, a novas tecnologias e a diferentes modelos de ensino, mas tudo isso acontece em um cenário em que o número de cursos de Medicina cresceu de forma expressiva nos últimos anos, tornando a formação médica cada vez mais exigente e desafiadora. Nesse contexto, a responsabilidade pela própria formação se torna ainda maior. Não basta apenas cumprir a grade curricular: é fundamental buscar compreender os conteúdos em profundidade, desenvolver raciocínio clínico e aproveitar de forma ativa as oportunidades práticas oferecidas ao longo do curso. Dentro dessa realidade, sinto-me privilegiada por estudar em uma instituição que valoriza a qualidade do ensino, com professores presentes, acessíveis e comprometidos com a formação do aluno, o que faz uma diferença significativa na nossa preparação profissional.
Como você enxerga a profissão médica na atualidade, especialmente em relação à valorização do médico, às condições de trabalho e à relação com os pacientes?
Vejo que a Medicina atravessa atualmente um momento de profundas transformações. O aumento do número de profissionais no mercado, as diferentes realidades de formação e o avanço constante das tecnologias impactam diretamente tanto as condições de trabalho quanto a percepção de valorização da profissão médica. Nesse cenário, acredito que o que realmente diferencia o médico não é apenas o conhecimento técnico adquirido ao longo da formação, mas, principalmente, a forma como ele se relaciona com o paciente. A escuta atenta, o cuidado individualizado e a responsabilidade na condução do atendimento passam a ter um peso ainda maior. No fim das contas, o trabalho do médico vai além de tratar a doença: envolve cuidar da pessoa como um todo, considerando seus aspectos físicos, emocionais e sociais.
Quais são suas expectativas e preocupações em relação ao futuro da Medicina e ao início da vida profissional após a graduação?
Minha expectativa é me tornar uma médica tecnicamente segura, preparada para tomar decisões responsáveis, mas sem perder o lado humano do cuidado. Quero conseguir oferecer ao paciente a atenção e o acolhimento que ele merece, mesmo em rotinas que, muitas vezes, são corridas, exigentes e sobrecarregadas. Minha principal preocupação é conseguir manter essa qualidade de atendimento no dia a dia, sem permitir que a pressão do trabalho e a saturação do mercado afastem o médico do paciente. Quero iniciar a vida profissional preparada para aprender continuamente, adaptar-me às transformações da profissão e, ao mesmo tempo, preservar essa relação de cuidado que considero essencial para o exercício da Medicina.

Felipe Alcântara Garzin
2º ano da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC)
O que motivou a escolha pela Medicina e em que momento você teve certeza de que essa seria a sua profissão?
A principal motivação para a minha escolha, sem dúvidas, foi seguir os passos do meu pai, exercendo a mesma profissão que ele. Desde cedo, acompanhar sua trajetória despertou em mim admiração pela Medicina e pelo impacto que o médico pode ter na vida das pessoas. Também me encanta a possibilidade de contribuir de forma positiva na vida de indivíduos que realmente necessitam de ajuda e assistência médica, oferecendo cuidado, atenção e suporte em momentos de fragilidade. Além disso, a ampla variedade de possibilidades de atuação dentro da carreira médica, bem como a segurança financeira que a profissão proporciona, sempre foram fatores importantes e atrativos para essa escolha.
Na sua percepção, como é ser estudante de Medicina hoje, diante das transformações no ensino, das novas tecnologias e das exigências da formação médica?
Na minha percepção, ser estudante de Medicina tem se tornado cada vez mais banalizado em razão do surgimento descontrolado de faculdades que oferecem o curso com facilidade de ingresso, muitas vezes com o objetivo principal de lucrar com mensalidades elevadas. Esse cenário acaba transformando o diploma médico em um verdadeiro artigo de luxo, distanciando-se do seu real significado social e profissional. Além disso, esse crescimento desordenado contribui para o aumento do número de médicos mal formados e despreparados, como demonstram os atuais resultados do ENAMED. Em relação às novas tecnologias, acredito que sejam positivas quando utilizadas com senso crítico apurado, pois, ao mesmo tempo em que podem auxiliar o médico no exercício da profissão, também podem disseminar informações enganosas, facilmente propagadas pelas redes sociais.
Como você enxerga a profissão médica na atualidade, especialmente em relação à valorização do médico, às condições de trabalho e à relação com os pacientes?
Como mencionado anteriormente, enxergo a profissão médica como desvalorizada na atualidade, principalmente em função da explosão no número de faculdades de Medicina no país. Esse cenário torna as condições de trabalho muito mais competitivas, o que, em parte, pode ser positivo, ao estimular a seleção dos profissionais mais bem preparados. Por outro lado, essa realidade também torna as oportunidades de trabalho para médicos recém-formados bastante escassas, dificultando o início da carreira. Quanto à relação médico-paciente, acredito que o aumento indiscriminado do número de faculdades tende a torná-la mais precária, em razão da formação inadequada de muitos profissionais, o que impacta diretamente a qualidade do atendimento prestado à população.
Quais são suas expectativas e preocupações em relação ao futuro da Medicina e ao início da vida profissional após a graduação?
Minhas principais expectativas e preocupações estão relacionadas à intensa concorrência, tanto pelas vagas de residência médica quanto pelas oportunidades de plantões e de trabalho, diante da enorme quantidade de médicos que se formam anualmente no Brasil. Esse cenário gera incertezas quanto à inserção no mercado e reforça a necessidade de uma formação sólida e diferenciada para enfrentar os desafios da profissão.
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