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APM lança campanha contra fake news

Em 14 de julho, a Associação Paulista de Medicina lançou a campanha “Fake News: Diagnóstico & Tratamento” durante webinar realizado em parceria com a Associação Médica Brasileira. As entidades se unem para barrar a disseminação de notícias inverídicas diante do cenário de preocupação dos médicos: mais de 90% acreditam que a desinformação interfere negativamente no enfrentamento à Covid-19.

Como parte da campanha, a APM colocou no ar um portal em que detalha o trabalho de conscientização que a instituição pretende empreender junto de seus parceiros, que também envolve a parceria da Ordem dos Advogados do Brasil – São Paulo. Nesse site, estão reunidas notícias, cartilhas, vídeos e diversos conteúdos relacionados à educação midiática e às fake news.

Durante a abertura do Webinar APM/AMB, José Luiz Gomes do Amaral, presidente da entidade paulista, lembrou que as epidemias – ao longo da história – nunca vieram sozinhas, mas acompanhadas de outras epidemias: a da intolerância e da ignorância. “As notícias falsas são combinação desses dois fatores. Temos que controlar o coronavírus, mas também a outra pandemia que o acompanha. E como fazer isso?”, questionou.

Uma das maneiras de combater à infodemia, termo que abrange essa divulgação desenfreada de notícias mentirosas, pode ser verificada no trabalho da APM, desde março de 2020, e, mais recentemente, da AMB, que semanalmente faz reuniões, encontros virtuais e webinars para discutir a pandemia de Covid-19 no Brasil.

“Em janeiro desse ano, César Eduardo Fernandes assumiu a AMB e teve a brilhante ideia de reunir as sociedades de especialidades que tratam diretamente da Covid-19 em um Comitê. Tenho o privilégio de participar desse grupo e nos reunimos semanalmente. Esse grupo elabora posicionamentos e informações técnicas sobre o coronavírus e tem sido importante para orientar os médicos e a sociedade nesse mar de desinformação”, relatou Gomes do Amaral.

Antes de passar a palavra ao presidente da AMB, ele mencionou o desejo de que a campanha “Fake News: Diagnóstico & Tratamento” tenha grande adesão na sociedade, tornando-se uma maneira de combater esse lado da pandemia. O da ignorância e da intolerância.

César Fernandes completou a introdução: “As fake news é um mal que nos afetava já antes da pandemia, utilizado para atender objetivos nada defensáveis. Não há fake news do bem – elas são sempre recheadas de intenções indefensáveis. Temos que unir todos os esforços para combatê-las. Por isso, hoje temos luminares do jornalismo e do direito que nos enriquecerão com seus pontos de vista”.

Comunicação e mídia
Para Cláudia Colucci, repórter e colunista de saúde da Folha de S. Paulo, a pandemia evidenciou como a propagação de notícias falsas – que já era uma realidade – está sendo muito eficaz, tal qual a propagação do próprio vírus. De maneira que, desde que surgiu o novo coronavírus, há informações falsas que questionam número de mortos, eficácia de máscaras, uso de álcool em gel, o distanciamento e, mais recentemente, as vacinas.

“Com isso, também está sendo questionada a integridade de pesquisadores e de instituições públicas, causando medo e desconfiança na população. O diagnóstico da situação já fizemos: sabemos do risco que as fake news representam, no caso da saúde, à vida das pessoas”, adicionou Colucci, que é mestre em História da Ciência pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Em relação ao eixo do tratamento, a especialista evocou um estudo da Universidade da Pensilvânia (EUA) que sugere um tratamento à infodemia igual ao que é feito com a pandemia. Tão importante como buscar os melhores mecanismos para tratar o doente de Covid-19, é termos uma vigilância epidemiológica adequada, com ação rápida em locais de surto para ajudar a conter a propagação.

“No caso da infodemia, os pesquisadores sugerem que tenhamos uma vigilância em tempo real da desinformação, com diagnóstico certeiro, mostrando a procedência do texto falso e respondendo imediatamente a ele. São ações de prevenção que também de resposta rápida de todos governantes e instituições.”

Outro palestrante da noite dedicado ao pensamento das notícias falsas em termos de comunicação e mídia, Chico Marés, editor e coordenador da Agência Lupa, destacou os fatores subjacentes da infodemia.

“Trata-se de um movimento que se retroalimenta. Quanto mais grave a pandemia, mais grave a infodemia. Ao passo que a infodemia também pode agravar a pandemia com mentiras sobre vacinação e isolamento”, exemplificou Marés.

Na sequência, ele lembrou o papel da internet nessa equação. “Com ela, temos muitas informações disponíveis e isso é ótimo, claro. Mas a internet tem pouco incentivo à busca pela informação completa. E as redes sociais têm estruturas que favorecem o extremismo e o sensacionalismo. As pessoas se comunicam mais e com muitas informações, mas através de pequenas frases, sem aprofundamento.”

Esse é uma das caraterísticas que, na avaliação do jornalista, é o ponto central das fake news: a falta de educação midiática. As pessoas sabem como consumir a internet, mas têm muita dificuldade de achar e distinguir informações de qualidade da desinformação. Por isso, inclusive, a Agência Lupa criou um braço educativo que produz cursos, cartilhas, sites e outras plataformas com materiais para ajudar as pessoas a se informarem melhor.

Após um recorrido sobre as notícias maliciosas que mais circularam no País desde março de 2020, Marés destacou o trabalho da Lupa desde então. O principal foi reforçar laços com especialistas e com agências internacionais de checagem de fatos. A empresa também fez projetos especiais destacando os principais estudos científicos sobre a Covid-19 e reportagens acerca da desinformação em escala global.

“O que aprendemos? Primeiro, que a desinformação tem impacto real na vida das pessoas: pode matar e matou muita gente. Também que o problema exige um olhar global, não é uma dinâmica restrita a alguns países. Vimos, ainda, que mesmo uma tragédia que afeta a vida de todos pode ser usada para ganhos políticos. Por fim, entendemos que são fundamentais o jornalismo e a divulgação científica e a educação midiática. Não basta derrubar uma fake news atrás de outra, precisamos educar as pessoas para perceberam o que é falso ou não”, concluiu o coordenador da Lupa.

Implicações legais
Juliana Hasse, presidente da Comissão Especial de Direito Médico e da Saúde da OAB – São Paulo, foi outra das palestrantes da noite. Ela relatou que dentro do órgão, a discussão sobre notícias falsas tem sido muito forte, defendendo sempre a evidência científica e a autonomia médica na prescrição da melhor conduta e tratamento que decidir.

“As fake news são um problema até entre nós. É uma questão traiçoeira. Por vezes, pensamos que a origem da informação é fidedigna, mas passamos para frente uma notícia inverídica. Isso, na área da saúde, tem dano potencializado. Envolve a credibilidade dos profissionais e da ciência.”

Para Hasse, que é especialista em Direito da Saúde e de Dados em Saúde pela Faculdade de Direito de Coimbra (Portugal), as notícias falsas estão muito ligadas à necessidade de confirmação que as pessoas têm acerca de uma opinião.

“Isso envolve a questão da vulnerabilidade, atacando emoções e gerando comoção. Às vezes, uma notícia falsa acaba tendo aceitação em massa que se sobrepõe aos fatos. Também temos que considerar que hoje há uma facilidade grande em obtermos dados. E dados sem controle facilitam a divulgação de notícias em algoritmos na internet, sem conseguirmos obter a origem da rede de mentiras”, explicou.

Na área da saúde, para a advogada, foi verificado um aumento da vinculação das emoções contra os fatos científicos. Esse problema, segundo sua argumentação, está atrelado ao medo da população, que tem como maior desejo retornar ao status quo – pré-doença. Trata-se de uma vontade de não passar por esse problema, obter uma possibilidade de cura. “Isso gera uma esperança desenfreada e um negacionismo libertador. Acaba gerando compartilhamento de notícias sem fonte e gera um efeito borboleta que é difícil de ser retomado depois.”

Esse é um cenário que exige cautela e atenção dos profissionais da Medicina em relação às informações que ele recebe e transmite. Segundo Hasse, não somente pelo dever moral que possuem, mas também por obrigações legais e de ética.

“Se formos remeter ao Código de Ética Médica, no capítulo que trata da publicidade, fica claro que há vedação de divulgação de assuntos médicos de forma sensacionalista ou com conteúdo inverídico. E proibição da divulgação, fora do meio científico, de processos de tratamento ou descobertas cujo valor – ou seja, eficácia – ainda não esteja reconhecido por órgão competente. Isso pode ter implicação na esfera cível ou até na esfera de código do consumidor”, detalhou a especialista.

Questão suprapartidária
Após as palestras, os convidados e os anfitriões se dedicaram a responder algumas das questões que surgiram durante o webinar. Uma das mais relevantes dela foi sobre o caráter político-ideológico atribuído a posicionamentos que são científicos e objetivos.

César Eduardo Fernandes lembrou que a Associação Médica Brasileira, enquanto instituição, não tem cunho político. “Pessoalmente, temos as opções que nos parecem mais adequadas. Mas não as expressamos, nem as tornamos públicas, pois podem se confundir com a nossa posição de gestor na Associação. Por isso, nos mentemos equidistantes.”

Ele reconheceu, porém, que a toda ação tomada são emprestados significados políticos e ideológicos. Ele se referiu a um comunicado emitido pelo Comitê de Monitoramento da Covid-19, mantido pela AMB com as sociedades de especialidades, não endossando o tratamento precoce.

“Não havia nenhum viés ou capricho em relação a quem pensava diferente. Nos cumpria apenas alertar a população e os colegas médicos sobre as evidências, sempre fundamentada com o conhecimento científico vigente. E por isso recebi afrontas cruéis que invadiam inclusive a esfera de minha vida pessoal e familiar. Ou seja, foram emprestadas à opinião da AMB conotações ideológicas, sem que nós nos movêssemos em nenhum momento por qualquer desses conflitos.”

José Luiz Gomes do Amaral lembrou que os médicos têm obrigação moral de informar, pois a omissão é criminosa e eticamente insustentável. “Temos, portanto, nos manifestado toda vez que existe agressão à saúde das pessoas. E fizemos isso com veemência nas últimas décadas. Fizemos isso em diversas situações e em diversos governos ao longo dos últimos 25 anos. E, dependendo das circunstâncias, éramos taxados por partidários de um lado ou outro. Faz parte, creio, de nossa vida. O que não poderíamos fazer era termos sido omissos.”

O presidente da APM lembrou, também, que as posições da APM são fundamentadas pelo trabalho do departamento de Medicina Baseada em Evidências, que estudam profundamente metodologia. “Nossas posições são técnicas e assessoradas por pessoas que estudam em extensão e profundidade, com muita qualidade. Não vejo nenhuma possibilidade de nos orientarmos de outra forma. Até porque estatutariamente as associações médicas não podem ser partidárias e ideológicas.”

Cláudia Colucci também falou sobre o tema, diante de questionamento sobre as posições do jornal em que atua. “Como José Luiz falou, nós jornalistas sofremos os mesmos tipos de ataque. Uma hora somos de direita, outra de esquerda. A Folha de S. Paulo tem larga trajetória de manter uma linha imparcial e crítica a qualquer tipo de governo. Mas as ‘pauladas’ vem independente do governo e a linha partidária da vez.”

A colunista também afirmou que o trabalho de jornalismo de saúde e ciência na Folha é amparado na Medicina Baseada em Evidências. “A gente se pauta por estudos publicados, por opiniões de médicos renomados, com bons currículos. Não vejo nenhum momento dessa pandemia em que a cobertura de saúde tenha resvalado no campo ideológico”, complementou Colucci.

Para assisti esse webinar e muitos outros, acesse a playlist completa aqui